Mais um dia das mulheres se
aproxima e com ele um mix de orgulho, raiva e cansaço. É o momento que mais me
recordo das violências que sofri, e escrever o termo “violência” incomoda, é um
sinal de fraqueza para mim.
De primeiro momento eu não
entendia a gravidade, ninguém que eu conversava entendia. Davam risada, eu me
sentia culpada, o comportamento deles era considerado normal e era estranho eu
não entender isso. Mas eu me sentia incomodada, não conseguia deixar passar e
ficava na minha cabeça. Ainda quando lembro me vem o sentimento daqueles
momentos e respiro fundo, ninguém merece sentir aquilo. A mulher só sabe
apanhar, não sabe que está apanhando e muito menos sabe revidar. Quando você
entende tudo isso é um banho de água fria, mil coisas repassam na cabeça e tem
que saber lidar.
Hoje sou madrinha de uma futura
mulher, como a sociedade irá trata-la? Amanhã vou a uma festa universitária,
com o que terei que me preocupar? Todos os dias utilizo o transporte público,
como me defender? Não existe um segundo de sossego na minha cabeça, o tempo
todo em alerta e me mantendo em pé para qualquer briga que eu precise comprar. Agora
sei como ser mulher funciona, é um porre, é viver com outros achando que você
foi feita para eles.
Conhecer-me como uma levou anos,
22 exatamente. Haja psicológico para conviver em uma briga diária com outras
pessoas querendo determinar o que você deve sentir, como deve se vestir, como
deve se comportar, em quais momentos deve falar, o que você pode ou não fazer e
aceitar o que os outros vão fazer com você. Às vezes me sinto um animal de laboratório,
como se eu não tivesse vontade própria e vivesse para servir a outros.
Não seja muito inteligente,
conviva em um ambiente onde só tenham homens e se comporte, use determinadas
roupas para que os agradem e aceite que eles vão te ver como objeto sexual e de
reprodução.
Apesar de perder o sorriso e o brilho
que tive enquanto ignorante de consciência de classe, nunca me senti tão
orgulhosa e mulher. O constante conflito interno de lutar, de me guardar, de me
exibir e de me aproveitar. Nem sempre estou em um ringue, às vezes estou segura
trancada em meu quarto, podendo baixar a guarda e podendo ser mulher.