quinta-feira, 5 de março de 2020

Segundo dia da terapia


Mais um dia das mulheres se aproxima e com ele um mix de orgulho, raiva e cansaço. É o momento que mais me recordo das violências que sofri, e escrever o termo “violência” incomoda, é um sinal de fraqueza para mim.

De primeiro momento eu não entendia a gravidade, ninguém que eu conversava entendia. Davam risada, eu me sentia culpada, o comportamento deles era considerado normal e era estranho eu não entender isso. Mas eu me sentia incomodada, não conseguia deixar passar e ficava na minha cabeça. Ainda quando lembro me vem o sentimento daqueles momentos e respiro fundo, ninguém merece sentir aquilo. A mulher só sabe apanhar, não sabe que está apanhando e muito menos sabe revidar. Quando você entende tudo isso é um banho de água fria, mil coisas repassam na cabeça e tem que saber lidar.

Hoje sou madrinha de uma futura mulher, como a sociedade irá trata-la? Amanhã vou a uma festa universitária, com o que terei que me preocupar? Todos os dias utilizo o transporte público, como me defender? Não existe um segundo de sossego na minha cabeça, o tempo todo em alerta e me mantendo em pé para qualquer briga que eu precise comprar. Agora sei como ser mulher funciona, é um porre, é viver com outros achando que você foi feita para eles.

Conhecer-me como uma levou anos, 22 exatamente. Haja psicológico para conviver em uma briga diária com outras pessoas querendo determinar o que você deve sentir, como deve se vestir, como deve se comportar, em quais momentos deve falar, o que você pode ou não fazer e aceitar o que os outros vão fazer com você. Às vezes me sinto um animal de laboratório, como se eu não tivesse vontade própria e vivesse para servir a outros.

Não seja muito inteligente, conviva em um ambiente onde só tenham homens e se comporte, use determinadas roupas para que os agradem e aceite que eles vão te ver como objeto sexual e de reprodução.

Apesar de perder o sorriso e o brilho que tive enquanto ignorante de consciência de classe, nunca me senti tão orgulhosa e mulher. O constante conflito interno de lutar, de me guardar, de me exibir e de me aproveitar. Nem sempre estou em um ringue, às vezes estou segura trancada em meu quarto, podendo baixar a guarda e podendo ser mulher.